segunda-feira, 23 de março de 2026

#312 - O famoso PPB e a normatização da violência

 

Estava a caminho de um evento em Maricá, ainda dentro do ônibus fretado, quando, do lado de fora, vi um pedinte (de tantos que rondam pelo centro da cidade). Nada fora do comum em uma cidade grande, apesar de considerar imoral em qualquer sociedade dita "civilizada". Mas o que fugiu completamente do aceitável foi o comentário de um colega ao meu lado: “Preto, Pobre e Bicha. Quanta infelicidade numa pessoa só!”. Naquele instante, senti um misto de náusea e incredulidade. Não era apenas uma frase infeliz; era a exposição crua de uma mentalidade carregada de preconceitos.

Situações como essa me fazem refletir sobre o tipo de convivência que escolho manter. Sempre busquei tratar as pessoas com respeito, independentemente de suas condições sociais, aparência ou orientação. No entanto, nem todos compartilham desse mesmo princípio básico de humanidade. Quando alguém se sente confortável para verbalizar um pensamento tão discriminatório, isso revela mais do que uma opinião momentânea — revela caráter, valores e limites éticos.
O mais inquietante é perceber como esse tipo de comportamento ainda é naturalizado em certos ambientes. Muitos preferem rir, ignorar ou simplesmente seguir em frente, como se fosse algo menor. Mas não é. Comentários assim reforçam estigmas, desumanizam pessoas e perpetuam uma lógica de exclusão que já deveria ter sido superada há muito tempo.
Diante disso, entendo que não tenho o poder de mudar o outro, mas tenho total responsabilidade sobre quem desejo manter por perto. Escolher com quem conviver é, também, uma forma de posicionamento. Ao me afastar de pessoas que expressam esse tipo de pensamento, não estou sendo radical, mas coerente com os valores que acredito.
Esse episódio, embora desagradável, serviu como mais um filtro. Em um momento da vida em que busco relações mais saudáveis, baseadas em respeito, empatia e troca verdadeira, fica cada vez mais claro que não há espaço para convivências que me causam desconforto moral. Às vezes, o afastamento não é perda — é, na verdade, um ganho silencioso de paz e integridade.
¿Abraços!

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

#311 - Cansaço que me consome

Ele vive há décadas numa convivência obrigatória com o pai, uma pessoa que ocupa o espaço físico, mas não oferece troca, cuidado ou parceria. Não há violência explícita, mas há invasão constante de território emocional.
Ele não sofre por falta de capacidade, projetos ou disciplina — sofre por excesso de convivência sem vínculo, somado à ausência de amigos próximos e a um ambiente doméstico deteriorado.
O cansaço dele não é preguiça; é fadiga relacional crônica. A irritação não é pelo barulho, pela novela ou pelo hábito do outro — é por nunca conseguir desligar a sensação de estar preso num lugar que não escolheu e que não pode transformar.
Quando ele sai para estudar, viajar ou participar de eventos, melhora imediatamente, o que mostra que o problema não é interno: é contextual.
👉 “Ele não está infeliz consigo mesmo; está esgotado de viver sem espaço.”
Por ChatGPT.
¿Abraços!

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

#310 - E daí...!?

A noite estava quente do lado de fora, fria do lado de dentro, o salão do palácio cheio, ao ponto de não haver lugares para as pessoas sentarem. Houve quem chegasse depois do horário previsto e não tivesse conseguido o exemplar do livro que estava sendo lançado. O Palácio da Cidade recebeu pessoas e só isso basta para definir quem frequentava o ambiente. E por ser essa (pessoas) uma definição bastante ampla (contém pleonasmo), pode se imaginar que tinham pessoas de todo o tipo, apesar de grande parte estar bem trajada para o evento, que ocorreu em um "palácio".
O seminário foi bacana, o livro em si foi um grande presente, os reencontros maravilhosos mas numa rápida pausa para fazer um breve registo do local e eis que me viro para pegar de volta para mim, o meu exemplar... cadê? Simplesmente furtaram meu livro, dentro do palácio, mesmo com o meu nome e telefone na penúltima página. Fiquei em choque e falei com algumas de minhas colegas presentes, no momento do ocorrido e simplesmente: "que coisa!". Poderia ter falado em alto e bom tom, questionado sobre o desaparecimento do livro que estava numa mesa atrás de mim, e por ter uma grande quantidade de figuras femininas por perto, poderiam ter tomado alguma atitude. E daí?
Então, no ponto de ônibus, onde poderíamos nós 3 (eu e duas outras colegas) embarcar numa mesma linha, apareceu uma jovem pedindo ajuda para recarregar (automaticamente) o cartão dela, enquanto que em paralelo uma linha alternativa apareceu, servindo à primeira colega e logo atrás, a linha que servia a todos nós, mas a ajuda para uma desconhecida estava em andamento. Após a ajuda, esta (desconhecida) embarcou em seu ônibus (para outro município) e as demais colegas já haviam ido embora. E daí que alguém pediu ajuda? E daí que eu fiquei sozinho? E daí que furtaram meu livro?
A sociedade reclama da ausência do humanismo mas não percebe que essa indiferença está arraigada em cada uma de suas vidas, também. E daí?
¿Abraços!