segunda-feira, 14 de setembro de 2026

#318 - O valor da vida...

Nos últimos dias, estive em dois cemitérios. Primeiro, no Jardim da Saudade; no dia seguinte, no tradicional Cemitério São Francisco de Paula. Não fui necessariamente em busca de uma reflexão sobre a morte, mas ela acabou surgindo naturalmente diante do que encontrei.
Diante de contrastes entre um local e outro, encontrei uma semelhança que se "esconde" nas entrelinhas. A bela paisagem no Jardim da Saudade, em contraste com jazigos e mausoléus do São Francisco de Paula (uns em boa conservação enquanto outros em completo estado de  abandono).
Mas a reflexão não veio do contraste, mas sim da semelhança: a do esquecimento...
Há sepulturas monumentais, construídas quase como pequenos palácios. Algumas parecem querer desafiar o próprio esquecimento, como se seus responsáveis dissessem: "Esta pessoa existiu e não pode ser esquecida". Em determinados casos, a ostentação funerária chega a lembrar os antigos faraós, que construíam monumentos grandiosos para garantir sua permanência na história.
Ao mesmo tempo, algumas sepulturas permanecem deterioradas, cobertas pelo tempo e pela falta de cuidados. Nelas, talvez estejam pessoas que um dia foram profundamente importantes para alguém.
E é aí que a reflexão se torna mais incômoda.
Para que sepulturas e afins, para serem "abandonadas" em seguida, ou tendo seus símbolos esquecidos?
Depois que alguém morre, os vivos continuam vivendo: trabalhando, constituindo famílias, fazendo planos, enfrentando problemas, envelhecendo, criando novas relações, e inevitavelmente, morrendo.
Os cemitérios, deveriam ser, ao meu ver, como museus a céu aberto, onde cada tumba, cada jazigo, cada mausoléu conta uma história, das mais simples às mais sofisticadas. Mas o que eu vi, é um verdadeiro estado de abandono e descaso com os símbolos ali presentes.
Será que valeu a pena tanto investimento para sepultar e depois esquecer?
Óbvio que não é uma regra, haja vista que há famílias que mantêm seus mortos presentes durante décadas, visitando regularmente seus túmulos, conservando fotografias e objetos.
E eu não me coloco fora desse contexto de "abandono".
Tenho familiares enterrados em diferentes lugares. A família de minha mãe está ligada a Carapebus, no estado do Rio de Janeiro, onde estarei nos próximos dias. Já a família de meu pai está em Londrina, no Paraná, onde minha convivência com meus avós paternos foi muito menor.
Isso mostra que a distância também interfere na maneira como preservamos nossas relações com aqueles que partiram. Nem sempre o abandono de uma sepultura representa abandono afetivo. Às vezes, representa apenas a passagem do tempo, a distância ou a transformação das próprias relações familiares.
Talvez seja por isso que um cemitério diga tanto sobre os vivos.
Uma sepultura impecavelmente cuidada não necessariamente significa que exista uma lembrança intensa por trás dela, mas convenhamos que um cemitério organizado transforma-se num museu a céu aberto.
Mas vale lembrar que 
memória e monumento são coisas diferentes.
No final das contas, não estaremos presentes para saber se alguém cuidará de nossa sepultura, levará flores ou lembrará nossa data de nascimento. A preocupação com o túmulo pertence aos vivos.
¿Abraços!