Prezados(as),
O grupo político que vocês apoiam defende ideias, práticas e discursos que considero incompatíveis com a democracia, a dignidade humana e o respeito às diferenças.
Esse é um grupo que, em grande parte, demonstra hipocrisia ao condenar determinados comportamentos enquanto tolera ou justifica preconceitos contra pessoas LGBT+, pessoas negras, praticantes de religiões de matriz africana, agora os católicos, pobres, estudantes, professores, entre outros.
Não venham me dizer que tudo isso é fake news ou invenção da esquerda. A violência, a discriminação e a intolerância são noticiadas diariamente. Além disso, conheço relatos de pessoas do meu próprio convívio que enfrentaram situações de hostilidade e violência.
Vocês apoiam um projeto político que ameaça conquistas sociais e direitos trabalhistas, favorecendo os interesses de quem já concentra grande poder econômico e empresarial em detrimento da proteção dos trabalhadores.
Vocês dizem defender a família tradicional, mas frequentemente reproduzem uma visão em que a mulher deve ser submissa, os filhos não devem questionar e a liberdade individual precisa se curvar às aparências sociais.
Vocês pregam segurança, mas promovem a ampliação do acesso às armas, como se armamento fosse sinônimo de proteção e a violência pudesse ser resolvida com mais violência, inclusive contra adversários políticos ou quem ouse pensar diferente.
Vocês apoiam lideranças e estruturas políticas cercadas por acusações e investigações relacionadas a milícias e outras formas de criminalidade. A população mais pobre acaba sendo a mais vulnerável à opressão, expondo toda a sociedade ao caos.
Vocês defendem discursos autoritários que colocam em risco a democracia, a liberdade de expressão e o direito de discordar. Quem pretende silenciar opositores ou enfraquecer instituições para permanecer no poder não defende a liberdade: a ameaça. O que está errado deve ser corrigido, e não eliminado, pondo em xeque tudo que foi construído.
Vocês denunciam a corrupção quando ela envolve adversários, mas frequentemente relativizam acusações e irregularidades quando atingem seus próprios aliados. Isso não é combate à corrupção, é corrupção seletiva no discurso.
Vocês também apoiam posições que ameaçam direitos conquistados pelas mulheres, sua autonomia e sua igualdade de oportunidades.
Foi durante os governos do PT que investigações de grande repercussão revelaram esquemas de corrupção envolvendo diferentes partidos e agentes públicos — o que prova que isso não é exclusividade do PT, como dizem. Nenhum partido é imune a críticas. A diferença está em condenar a corrupção independentemente de quem a pratique, em vez de enxergá-la apenas quando envolve adversários. Presenciei situações que considero profundamente negativas durante o governo anterior, inclusive nas relações exteriores. Ainda assim, vejo pessoas colocarem o preconceito político acima de qualquer avaliação objetiva, tratando com desprezo um cidadão, torneiro mecânico e nordestino, que chegou à Presidência da República e fez muito pelos mais pobres.
Diante de tudo isso, há uma questão que me atinge diretamente: hoje, sinto que corro mais riscos por ser quem sou e por não esconder minha homossexualidade, por defender os mais vulneráveis, por frequentar terreiros como qualquer outra religião, e simplesmente por pensar diferente.
Não aceito viver com medo para satisfazer as convicções políticas de outras pessoas e ficar calado diante de tanto absurdo que venho presenciando. Não exijo que vocês concordem comigo em tudo. Exijo, porém, que respeitem meu direito de pensar, existir e viver sem hostilidade.
Agradeço o que vocês fizeram por mim até hoje. Entretanto, chegou o momento de cada um seguir seu caminho. Não quero manter proximidade com pessoas que legitimam discursos ou atitudes hostis à minha existência, à minha identidade e aos meus direitos e de tantos outros.
Não me procurem para tentar me converter às suas convicções. Não tentem desqualificar minha experiência, minimizar meus receios ou me convencer de que devo aceitar como normal aquilo que considero uma ameaça à minha dignidade.
Não preciso odiar vocês para decidir me afastar. Não preciso da aprovação de vocês para viver de acordo com meus princípios. E não preciso renunciar a quem sou para preservar relações pessoais.
Minha vida não é moeda de troca, minha dignidade não está em negociação e minha existência não depende da aprovação de ninguém.
A partir de agora, peço que respeitem minha decisão, meu espaço e minha privacidade. Sigam seus caminhos, eu seguirei o meu.
Não abro mão da minha dignidade. Não abro mão da minha liberdade. Não abro mão de quem sou.